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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Onde tudo acaba


Eu sempre achei que estaria preparada pra quando este momento chegasse.Mas não esperava que seria numa manhã de domingo, as 7:00 da
manhã.
Foi uma coisa esperada.Que todos esperavam, mas não esperavam o dia que aconteceria. É uma coisa estranha. Todos estavam se preparando.Mas quando o tal momento chega, tu deseja estar em qualquer lugar do mundo, menos numa casa mortuária.
Na manhã de domingo, meu tio ligou pra minha casa. Minha mãe me acordou, pontualmente às 7:00. "Cine, nós vamos pra Guaiba. A D. Mônica faleceu", "Como é? é sério?", "Sim.Mas nós vamos depois do almoço.Pode voltar a dormir." Poxa, não preciso dizer que perdi totalmente o sono. Fiquei tentando fazer cair a ficha, sobre a situação. Eu acordei, botei o DVD do This Is It, que havia locado. Mas minha atenção não estava focada no que se passava na tela. Tomei um banho, almocei. Escolhi uma camiseta preta, uma calça de cor diferente pra descontrair aquele clima pesado.
Chegamos a Guaiba, pontualmente às 13h30min. Até o momento eu estava bem. Tinha consciencia de que havia perdido a minha avó. Veja bem, este ponto é muito importante. Ela foi a primeira avó que enterrei. Os outros ainda estão vivos. Tanto que os avós maternos acompanharam eu e meus pais ao velório.
Quando ouvi o primeiro "Meus pêsames" eu tremi as pernas. Ao chegar e cumprimentar o meu tio, não foi fácil. Comecei a chorar no mesmo momento. Ao entrar no ambiente, e se dar de cara com um caixão, cuja ali jaz uma pessoa que sempre foi guerreira, que pra mim é exemplo de força, não desceu bem. Chorei e me isolei num canto.
Sai pra fora.Fui tomar um ar. Algum tempo depois chegou um dos meus primos, e o meu avó, agora viúvo. Eu juro que no momento que o abracei tentei passar o maximo de boas vibrações. Mas ao escutar seu tom de voz, puxando o terço, rezando pela companheira que havia partido, me cortou o coração. Imaginei seu Leonardo solitário naquela casa enorme. Chorei mais uma vez.
Sai novamente. A minha prima chegou. As duas de óculos escuros.Mas os olhares se cruzaram sob as lentes escuras. Um dos abraços mais sinceros que já trocamos até hoje, aconteceu. Choramos juntas. Iguais a duas crianças. "Não consegui ver a vó", eu disse. "Também não",ela respondeu. Uns vinte minutos depois, ela se vira: "Se tu quiser ver a vó,te dou uma força". "Vamos lá,então",eu respondi.
Entramos nós duas.Abraçadas. Observamos a vó ali. Em silêncio. "Ela parece tão calma e tranquila",falou a Thays. "Nem parece que já passou por tudo que passou",eu acabei a conversa.
Uma das partes mais criticas, foi a hora da encomoendação do corpo. Meu avó olhou fixamente pra ela o tempo todo. Tirava e botava a aliança. E eu chorava. Pensando na dor dele.
Acabadas as despedidas, hora do sepultamento. Quando vi meu pai e meus tios pegando aquele caixão e engavetando-o, me doeu algo muito forte dentro de mim. Chorei novamente.
Depois que foram todos embora, ficamos, eu, meus pais, meus tios e meu avó. "Como vão ficar as coisas agora, pai?" perguntou o meu pai. "É. Vai mudar.Alguma coisa vai mudar né?". Meu vó manteve aquela sabedoria de sempre. "Então vamos lá?" parece que se nós não o tivéssemos chamado, ele permaneceria ao lado da gaveta onde agora repousa minha avó. Ele deu um passo pra frente, voltou pra gaveta e falou "Descansa em paz."